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Ensaio Técnico e Ensaio Artístico (ou Ensaio de Performance)

Ensaio Técnico e Ensaio Artístico (ou Ensaio de Performance)

Por Leandro Fonseca

Boa parte das bandas iniciantes, e até muitas iniciadas, se preocupa apenas com a parte técnica.

Os ensaios consistem em executar as músicas e ajustar detalhes dos arranjos.
Na hora do show, por mais perfeita que esteja a execução das músicas, essas bandas deixam a desejar em relação à performance e à fluência.
É importante estar também preparado e ensaiado para tornar o show dinâmico e interagir com o público.

Bati um papo com o Giuliano Bonetti, da banda Universo Relativo, pra ver como eles lidam com essa e outras questões.

Leandro Fonseca: Já assisti a UR se apresentando, mas o último show no Teatro Lauro Gomes (em São Bernardo do Campo), no dia 7 de outubro, chamou muito a minha atenção positivamente em relação à performance de vocês. Como vocês se prepararam para o show?

Giuliano Bonetti: Esse era um show que vínhamos planejando há bastante tempo. Tocar em um palco tão importante pra cultura da nossa cidade, ainda mais comemorando aniversário de banda, demandou bastante trabalho. Tivemos todos os cuidados com as pessoas que trabalhariam no dia como roadie, técnico de som, técnico de luz, fotógrafo, captação de áudio, de vídeo, além dos músicos que estariam no palco com a gente. O show começa na verdade em todo esse processo, fizemos ações em escolas, parcerias. Isso tudo além do principal: muito ensaio e dedicação pra pensar em cada detalhe do show.

LF: Nitidamente me deu a sensação de que estão em uma nova fase e atingiram um novo patamar de maturidade. Como trabalharam essa relação ensaio técnico vs. ensaio artístico?

GB: Fico feliz com o elogio, muito obrigado, mestre! Haha.
Os ensaios são o momento principal, é muito importante abrir mão de tocar alto e pensar no conjunto, assim conseguimos ouvir bem todos os instrumentos, sentir o que precisa ser melhorado. A gente buscou primeiro deixar cada música redonda e depois ensaiar bem todas as emendas, trocas de instrumentos, a fim de sentir o mais próximo do resultado final.

LF: Escrevi um texto exatamente sobre isso (Ensaie mais baixo e ouça melhor). Vejo que muitas bandas têm dificuldade em lidar com o volume nos ensaios. Ensaiam exageradamente alto, não se ouvem bem, e ainda correm o risco de desenvolver problemas relacionados à audição.

LF: Vocês chegaram a fazer um ensaio completo e cronometrar a duração do show?

GB: Sim, geralmente o último ensaio que fazemos, quando tudo já está ensaiado, é para passar o show completo. Serve para sentirmos o tempo das trocas de instrumentos, às vezes aquela afinada no instrumento entre uma música e outra, além de ver o tempo total de show. É bem legal para chegar seguro e já prever possíveis soluções caso algo dê errado na hora do show.

LF: Vocês fazem ensaios dedicados para vozes ou cordas, por exemplo?

GB: Sim, a gente costuma sempre passar as aberturas de voz separadamente, assim como baixo com a batera, baixo com a guitarra. Assim, evita de deixar passar algum detalhe que não esteja encaixando. A curiosidade foi que nesse show tivemos a participação de um violino e um violoncelo, o Tassinho (guitarrista) também ensaiou muito com eles e com o Vitão (tecladista) antes do ensaio com a banda completa.

LF: Alguém assina a produção do show?

GB: O show é todo pensado por nós mesmos, junto com nossa produtora, a Casa de Abelha. Mas a parte musical vai muito do nosso feeling mesmo. Nós temos o costume também de pensar a ordem do show considerando qual caminho queremos que o show faça. Por exemplo, se a primeira música tem que ser a mais empolgante, quais emendas podem ficar legais, quais espaços são necessários pra interação com público, onde colocar músicas novas. Assim, o Julio (batera) gosta até de fazer um gráfico, pensando quais lacunas precisamos preencher com cover ou até composições novas.

LF: Como escolhem o figurino?

GB: O figurino é escolhido com uma profissional, a Anna Beatriz Tomé. Ela atua com a gente nas fotos de divulgação, vídeos, tudo pensado na personalidade de cada um, na identidade da banda também. Já é lugar comum falar isso, mas é fundamental uma escolha criteriosa na imagem da banda em todos os momentos.

LF: E o repertorio? A escolha é democrática?

GB: Sim, somos uma banda muito democrática. A gente faz votação pra tudo. Então, a gente faz a avaliação do tempo de show, qual ordem pode ficar legal e assim, se precisar, escolhemos pontualmente algum cover para conversar com o restante do show.

LF: Vocês ensaiam tudo o que vão falar com o público e em quais momentos do show, ou tem uma dose de improviso?

GB: Nós sempre deixamos definidos os momentos em que as falas vão ser necessárias. Com isso, a gente já faz uma primeira divisão do que vai ser falado (redes sociais da banda, agradecimentos, contar a história da música seguinte). Mas é claro que o show nunca acontece da forma exata, então é importante ter jogo de cintura e improvisar de vez em quando. Acho importantíssimo que o show seja espontâneo e natural e, justamente por isso, é legal fazer um planejamento, assim me deixa seguro se na hora a corda de alguém estoura, se dá algum jazz na parte técnica.

LF: Vocês também costumam apresentar uma música cover nos shows. Como é feita a escolha da música e a elaboração dos arranjos?

GB: Somos uma banda autoral, então o cover vem para complementar algum momento do show, por isso escolhemos músicas que conversem muito com a proposta do show e com a nossa mensagem. Assim, a gente procura sempre fazer uma versão nossa da música.

LF: Vocês apresentaram músicas novas nesse show do Lauro Gomes e estão para lançar um vídeo de Himalaia, gravado ao vivo. Quando sai o vídeo e quais os planos para o próximo ano?

GB: O vídeo deve sair no dia 5 de dezembro, o lançamento será na página Brasileiríssimos no Facebook, não é por nada, mas ficou bem bonito! Haha.
Para 2018, estamos em fase de composição, pois queremos lançar alguns singles ao longo de todo o ano. A ideia também é trabalhar bem essas músicas com material audiovisual, então queremos dar uma atenção para o Youtube e as redes sociais. Estamos pensando a melhor maneira de fazer tudo isso.

LF: No fim do ano passado vocês lançaram música nova composta em parceria com o Capela. Alguma surpresa pra este fim de ano?

GB: Ano passado tivemos essa alegria de fim de ano com essa música, a Em busca de paz que está sempre nos nossos shows, a letra dela virou até tatuagem do meu irmão! Foi muito legal porque teve a participação de muitos artistas amigos nossos. Mas esse ano o lançamento que faremos é do vídeo ao vivo de Himalaia, além de alguns shows como a virada inclusiva dia 2/12 e estamos na semifinal do Fun Music. Nossa cabeça já está nos singles de 2018, mas quem sabe a Em busca de paz não aparece nas plataformas de streaming?

LF: Bom demais, Giu! Agradeço o papo e desejo mais sucesso e realizações ainda pra Universo Relativo. Sei que é um trampo feito com muito amor e empenho.

GB: Valeu pelo papo, muito legal falar desses detalhes que muitas vezes o pessoal não vê! Obrigado, mestre!

Para acompanhar a banda:
Instagram: @universo.relativo
Facebook: fb.com/urelativo

leandro

Leandro Fonseca – Compositor, Professor, Músico, Produtor e Diretor da Mousikê  fb.com/leandrofonsecatgk

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Mousikê Entrevista Paulo Anhaia

Dentro do universo da música, existe uma infinidade de opções de carreiras: compositor, arranjador, maestro, músico, professor. Cada uma destas opções pode se desdobrar em outras.

O compositor, por exemplo, pode compor o seu próprio trabalho autoral ou para outros artistas, pode compor trilhas sonoras para cinema ou televisão, pode compor para publicidade, fazendo jingles e comerciais, ou ainda, uma somatória dessas coisas.

O músico pode, da mesma forma, tocar suas próprias músicas ou “covers”, pode tocar em uma banda de baile, realizando formaturas, festas e casamentos, ou ainda, pode ser “sideman”, acompanhando algum artista, ou se especializar como um músico de estúdio, realizando gravações. Enfim, as opções são muitas.

Se incluirmos o mundo do áudio, temos ainda produtor musical, engenheiro de som, técnico de PA, entre muitas outras carreiras.

Nesta série, vamos entrevistar algumas pessoas que vivem de música, ou de áudio, para conhecer um pouquinho de como é o trabalho delas.

Mousikê Entrevista Paulo Anhaia

anhaia

Paulo Anhaia é produtor musical há mais de 20 anos, ganhador de 4 Grammys latinos, além de cantor, compositor, arranjador, multi-instrumentista e engenheiro de som. Vamos descobrir um pouco mais sobre o trabalho de um produtor musical.

1) Paulo, o que faz parte do trabalho de um produtor musical? Poderia fazer um resumo da sua rotina de trabalho?

Existem vários tipos de produtores musicais, vou falar como eu costumo trabalhar. Eu trabalho mais com bandas de Rock, Pop Rock e Metal, que além de serem estilos que eu gosto muito, são estilos onde fiz vários discos bem sucedidos.

O trabalho começa com a seleção de repertório, que é a parte mais importante, ter boas músicas é essencial, depois acertamos estrutura, arranjo das músicas, letras… Enfim, tudo o que pode ser feito para aumentar o potencial dessas músicas.

Todas as alterações são feitas de comum acordo, eu nunca imponho nada para nenhum artista. A vantagem que eu tenho, além da minha experiência profissional, é que não tenho nenhuma ligação emocional com as músicas e não estou envolvido em nenhuma questão política dentro da banda. Posso ter um parecer baseado somente no que a música me diz, que é o que acontece com os ouvintes.

Dentro do estúdio eu dirijo os músicos e engenheiros de som para ter o resultado que nós, a banda e eu, esperamos. Trabalho como engenheiro de som em várias das minhas produções, mas sempre que o cachê comporta, terceirizo a parte de engenharia de som pra me focar mais nas músicas, que é realmente a parte mais importante do trabalho.

2) Como você chegou a essa área?

Foi natural, eu sempre tive bandas e nelas eu era uma espécie de produtor sem saber disso. Eu sempre fui mais chato com relação aos arranjos, selecionava repertório de shows e etc. Depois que comprei meu primeiro gravador de 4 canais em cassete (não tinha essa de ter computador em casa no início dos anos 90) alguns amigos me procuraram para produzir o trabalho deles, e as coisas foram acontecendo.

Quando dei por mim, estava dentro de um dos maiores estúdios de gravação da América Latina, gravando artistas consagrados, como Rita Lee, por exemplo.

As pessoas ouviam os trabalhos que fiz e me procuravam para que eu trabalhasse pra elas.

3) Quais dos trabalhos com os quais esteve envolvido você considera mais significativos? Quais trabalhos mais gostou de ter feito ou mais gostou do resultado?

Tem vários! Como produtor, os trabalhos do CPM22 são os que mais me deram retorno, discos de ouro, prêmios e etc.

Fiz um CD do Oficina G3, chamado Indiferença, que até hoje me gera muito trabalho. O On the Rock do Resgate também é um disco da mesma época que as pessoas sempre me falam a respeito.

Eu gosto muito dos dois primeiros CDs das Velhas Virgens, aliás, o primeiro CD que produzi foi o primeiro CD deles. Foi a primeira banda a confiar no meu trabalho.

O CD Peixe Homem do Madame Saatan eu gosto muito também.

Como engenheiro de som, vários CDs do Charlie Brown Jr. Em especial o Bocas Ordinárias, em que fiz quase toda a parte técnica sozinho, os CDs do Rouge, em que fui também diretor e arranjador vocal, os CDs do NX Zero e vários outros.

4) Você também é músico, professor, compositor, entre outras coisas, como consegue conciliar as atividades e ser produtivo e em que o conhecimento musical o ajuda no trabalho de produção?

Houve uma época em que eu passava de 12 a 18h por dia dentro do estúdio e me sobrava pouco tempo para ser músico. Por mais estranho que pareça, foi justamente nessa época que montei a banda MonsteR, gravamos 3 CDs e fizemos shows pelo Brasil durante dez anos, hehehe, sei lá, acho que eu sou assim, não consigo fazer uma coisa só.

O conhecimento musical sempre foi mais importante do que o conhecimento de áudio pra mim. Tenho trabalhos que fiz no começo de carreira, sem muito conhecimento técnico e que as pessoas elogiam até hoje. Tenho certeza que isso acontece porque a parte musical desses trabalhos é boa.

5) Você ministra uma série de cursos e workshops sobre gravação, mixagem, produção e direção musical, também já foi professor de baixo, se pudesse resumir toda esta experiência em um conceito sobre música e musicalidade para um aluno, como seria?

Faça soar bem. Só isso.

Quer ser músico? Toca rápido? Soa bem? Não? Toque mais lento e faça soar bem, só toque mais rápido quando puder fazer isso soar bem.

Quer ser engenheiro de áudio? Conhece a parte técnica? Soa bem? Não? Mexa até soar bem. Comece acertando os volumes entre os instrumentos e só parta para algo mais rebuscado se isso não for o suficiente. Muita gente se perde com os métodos e esquece do resultado.

6) Para o artista, quais são as vantagens de trabalhar com um produtor musical?

Primeiro de tudo, ter uma visão de fora. É muito comum o artista estar tão envolvido com seu trabalho que ele acha que o que ele faz é perfeito, infalível, e melhor do que qualquer coisa já feita, hehehe.

Um produtor consegue ver o que o artista tem em potencial e trabalhar junto com o artista para trazer para a gravação o que o artista tem em mente.

Outra coisa muito importante, o produtor tem um método e consegue bons resultados rapidamente. Vejo muitos artistas gravando o mesmo trabalho há anos… Se o cara tem um produtor bom, é possível entrar num estúdio e em questão de dois meses ter um CD completo pronto.

O produtor seleciona, organiza e viabiliza o projeto.

7) Você defende que é possível fazer gravações “caseiras” com equipamento barato e ter um resultado profissional. Qual o segredo?

Ouvido. Um ouvido bem treinado pode ter um ótimo resultado com qualquer equipamento.

Nenhum equipamento no mundo vai fazer com que um som ruim fique bom. Um equipamento ótimo melhora o seu som consideravelmente, mas estamos falando, no máximo, de uns 10% de melhora. Quando falo isso, muita gente duvida, e eu não faço questão nenhuma de convencê-los do contrário.

Pra muita gente a coisa se baseia em fé. Se o cara acredita que ele toca mal porque não tem uma Gibson, ele vai acreditar nisso até ter a Gibson e poder tirar as conclusões dele.

Pra mim a coisa se baseia em experiência. Tudo o que a galera sonha, gravar com os melhores músicos, nas melhores salas, com os melhores equipamentos, eu já fiz. Mixei em mesa SSL por mais de 10 anos, sei do que esse tipo de equipamento é capaz, mas se for pra escolher entre ter um ótimo músico, como Maguinho Alcântara, Edson Guidetti, Pedro Ivo, Marcão (do Bula, ex Charlie Brown), Dani Weksler do Nx Zero, ou ter um ótimo equipamento, eu escolho os músicos.

Se com esses músicos eu ainda tiver um ótimo equipamento, sensacional, meu resultado vai melhorar mais uns 10%, hehehe.

O Tiririca gravado com o Mesmo equipamento do Freddie Mercury ainda soará exatamente como o Tiririca. 😀

8) Você já fez mixagens de gravações feitas ao vivo também. Qual a grande diferença, na sua opinião, entre o ao vivo e o gravado em estúdio?

No ao vivo a gente tem que aceitar mais os vazamentos e deixar a música te guiar mais do que numa gravação em estúdio. O equilíbrio no ao vivo vem do que está gravado, em certos casos você abaixa os pratos e eles continuam vazando na voz, você aumenta a guitarra e o grave do baixo aumenta, hehehe, é uma briga, mas aceitando o que está na gravação, fica bem divertido.

9) O que você acha essencial para que considere uma música boa? Qual sua dica para alguém que tem uma banda, ou que compõe, conseguir alavancar sua carreira?

Eu acho que as pessoas confundem a coisa da música ser boa ou ruim com o estilo da música. Pra quem não gosta de samba, nem mesmo o melhor samba agrada, e assim é com qualquer estilo de música.

Música boa é aquele que te toca, seja pra ter fazer chorar, sorrir, cantar junto, dançar… É subjetivo sim, mas fácil de avaliar quando se conhece o estilo em questão. Eu não produzo estilos que não conheço bem, não tenho critério de avaliação pra isso, quando as pessoas me procuram eu explico isso pra elas e não faço o trabalho.

Alavancar a carreira é uma coisa complicada. Eu não gosto do Music Business, nunca gostei. Acredito em longevidade, em fazer música que seja realmente significativa e que daqui a 30 anos ainda faça uma diferença na vida das pessoas, é isso que busco quando produzo, nunca penso no “novo hit do verão”, nada contra isso, mas não é o que eu busco.

10) Estamos passando por um grande mudança na forma como se produz, se consome e se ensina música. Qual a sua perspectiva para o cenário daqui a cinco anos?

Eu acredito que muitos artistas vão perceber que a liberdade que temos não é tão interessante.

Hoje podemos gravar um disco em casa. Sabe o que acontece? O cara passa 5 anos aprendendo a mexer no equipamento e quando vai ver perdeu o momento de sua carreira e resolveu passar a ser um produtor. Só que, assim como ele, os outros artistas estão perdendo seu tempo aprendendo a mexer em equipamento e não vão contratá-lo para produzir. Ele perdeu seu momento para construir uma carreira numa área que não é sua primeira opção e na qual possivelmente ele não será bem sucedido por falta de clientes.

Acredito que a galera vai focar mais na música, que é o que realmente importa. Ou ao menos é o que eu espero que aconteça, porque precisamos de renovação já.

A mesma coisa se aplica aos sistemas de streaming, por exemplo. Eles não dão dinheiro suficiente pro músico poder sobreviver de sua música. Por outro lado, ajudam muito um músico iniciante a aparecer. Agora, depois que esse músico aparecer, mesmo que ele seja um grande sucesso em termos de streaming, não vai conseguir seu sustento por isso. Complicado, não?

Para conhecer mais sobre o trabalho do Paulo, acesse http://www.pauloanhaia.com.br

Para receber um orçamento de produção, gravação, edição, mixagem e masterização mande um e-mail para contato@pauloanhaia.com.br

Valeu, Paulo!

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