Categoria: Entrevistas

Mousikê Entrevista Paulo Anhaia

Dentro do universo da música, existe uma infinidade de opções de carreiras: compositor, arranjador, maestro, músico, professor. Cada uma destas opções pode se desdobrar em outras.

O compositor, por exemplo, pode compor o seu próprio trabalho autoral ou para outros artistas, pode compor trilhas sonoras para cinema ou televisão, pode compor para publicidade, fazendo jingles e comerciais, ou ainda, uma somatória dessas coisas.

O músico pode, da mesma forma, tocar suas próprias músicas ou “covers”, pode tocar em uma banda de baile, realizando formaturas, festas e casamentos, ou ainda, pode ser “sideman”, acompanhando algum artista, ou se especializar como um músico de estúdio, realizando gravações. Enfim, as opções são muitas.

Se incluirmos o mundo do áudio, temos ainda produtor musical, engenheiro de som, técnico de PA, entre muitas outras carreiras.

Nesta série, vamos entrevistar algumas pessoas que vivem de música, ou de áudio, para conhecer um pouquinho de como é o trabalho delas.

Mousikê Entrevista Paulo Anhaia

anhaia

Paulo Anhaia é produtor musical há mais de 20 anos, ganhador de 4 Grammys latinos, além de cantor, compositor, arranjador, multi-instrumentista e engenheiro de som. Vamos descobrir um pouco mais sobre o trabalho de um produtor musical.

1) Paulo, o que faz parte do trabalho de um produtor musical? Poderia fazer um resumo da sua rotina de trabalho?

Existem vários tipos de produtores musicais, vou falar como eu costumo trabalhar. Eu trabalho mais com bandas de Rock, Pop Rock e Metal, que além de serem estilos que eu gosto muito, são estilos onde fiz vários discos bem sucedidos.

O trabalho começa com a seleção de repertório, que é a parte mais importante, ter boas músicas é essencial, depois acertamos estrutura, arranjo das músicas, letras… Enfim, tudo o que pode ser feito para aumentar o potencial dessas músicas.

Todas as alterações são feitas de comum acordo, eu nunca imponho nada para nenhum artista. A vantagem que eu tenho, além da minha experiência profissional, é que não tenho nenhuma ligação emocional com as músicas e não estou envolvido em nenhuma questão política dentro da banda. Posso ter um parecer baseado somente no que a música me diz, que é o que acontece com os ouvintes.

Dentro do estúdio eu dirijo os músicos e engenheiros de som para ter o resultado que nós, a banda e eu, esperamos. Trabalho como engenheiro de som em várias das minhas produções, mas sempre que o cachê comporta, terceirizo a parte de engenharia de som pra me focar mais nas músicas, que é realmente a parte mais importante do trabalho.

2) Como você chegou a essa área?

Foi natural, eu sempre tive bandas e nelas eu era uma espécie de produtor sem saber disso. Eu sempre fui mais chato com relação aos arranjos, selecionava repertório de shows e etc. Depois que comprei meu primeiro gravador de 4 canais em cassete (não tinha essa de ter computador em casa no início dos anos 90) alguns amigos me procuraram para produzir o trabalho deles, e as coisas foram acontecendo.

Quando dei por mim, estava dentro de um dos maiores estúdios de gravação da América Latina, gravando artistas consagrados, como Rita Lee, por exemplo.

As pessoas ouviam os trabalhos que fiz e me procuravam para que eu trabalhasse pra elas.

3) Quais dos trabalhos com os quais esteve envolvido você considera mais significativos? Quais trabalhos mais gostou de ter feito ou mais gostou do resultado?

Tem vários! Como produtor, os trabalhos do CPM22 são os que mais me deram retorno, discos de ouro, prêmios e etc.

Fiz um CD do Oficina G3, chamado Indiferença, que até hoje me gera muito trabalho. O On the Rock do Resgate também é um disco da mesma época que as pessoas sempre me falam a respeito.

Eu gosto muito dos dois primeiros CDs das Velhas Virgens, aliás, o primeiro CD que produzi foi o primeiro CD deles. Foi a primeira banda a confiar no meu trabalho.

O CD Peixe Homem do Madame Saatan eu gosto muito também.

Como engenheiro de som, vários CDs do Charlie Brown Jr. Em especial o Bocas Ordinárias, em que fiz quase toda a parte técnica sozinho, os CDs do Rouge, em que fui também diretor e arranjador vocal, os CDs do NX Zero e vários outros.

4) Você também é músico, professor, compositor, entre outras coisas, como consegue conciliar as atividades e ser produtivo e em que o conhecimento musical o ajuda no trabalho de produção?

Houve uma época em que eu passava de 12 a 18h por dia dentro do estúdio e me sobrava pouco tempo para ser músico. Por mais estranho que pareça, foi justamente nessa época que montei a banda MonsteR, gravamos 3 CDs e fizemos shows pelo Brasil durante dez anos, hehehe, sei lá, acho que eu sou assim, não consigo fazer uma coisa só.

O conhecimento musical sempre foi mais importante do que o conhecimento de áudio pra mim. Tenho trabalhos que fiz no começo de carreira, sem muito conhecimento técnico e que as pessoas elogiam até hoje. Tenho certeza que isso acontece porque a parte musical desses trabalhos é boa.

5) Você ministra uma série de cursos e workshops sobre gravação, mixagem, produção e direção musical, também já foi professor de baixo, se pudesse resumir toda esta experiência em um conceito sobre música e musicalidade para um aluno, como seria?

Faça soar bem. Só isso.

Quer ser músico? Toca rápido? Soa bem? Não? Toque mais lento e faça soar bem, só toque mais rápido quando puder fazer isso soar bem.

Quer ser engenheiro de áudio? Conhece a parte técnica? Soa bem? Não? Mexa até soar bem. Comece acertando os volumes entre os instrumentos e só parta para algo mais rebuscado se isso não for o suficiente. Muita gente se perde com os métodos e esquece do resultado.

6) Para o artista, quais são as vantagens de trabalhar com um produtor musical?

Primeiro de tudo, ter uma visão de fora. É muito comum o artista estar tão envolvido com seu trabalho que ele acha que o que ele faz é perfeito, infalível, e melhor do que qualquer coisa já feita, hehehe.

Um produtor consegue ver o que o artista tem em potencial e trabalhar junto com o artista para trazer para a gravação o que o artista tem em mente.

Outra coisa muito importante, o produtor tem um método e consegue bons resultados rapidamente. Vejo muitos artistas gravando o mesmo trabalho há anos… Se o cara tem um produtor bom, é possível entrar num estúdio e em questão de dois meses ter um CD completo pronto.

O produtor seleciona, organiza e viabiliza o projeto.

7) Você defende que é possível fazer gravações “caseiras” com equipamento barato e ter um resultado profissional. Qual o segredo?

Ouvido. Um ouvido bem treinado pode ter um ótimo resultado com qualquer equipamento.

Nenhum equipamento no mundo vai fazer com que um som ruim fique bom. Um equipamento ótimo melhora o seu som consideravelmente, mas estamos falando, no máximo, de uns 10% de melhora. Quando falo isso, muita gente duvida, e eu não faço questão nenhuma de convencê-los do contrário.

Pra muita gente a coisa se baseia em fé. Se o cara acredita que ele toca mal porque não tem uma Gibson, ele vai acreditar nisso até ter a Gibson e poder tirar as conclusões dele.

Pra mim a coisa se baseia em experiência. Tudo o que a galera sonha, gravar com os melhores músicos, nas melhores salas, com os melhores equipamentos, eu já fiz. Mixei em mesa SSL por mais de 10 anos, sei do que esse tipo de equipamento é capaz, mas se for pra escolher entre ter um ótimo músico, como Maguinho Alcântara, Edson Guidetti, Pedro Ivo, Marcão (do Bula, ex Charlie Brown), Dani Weksler do Nx Zero, ou ter um ótimo equipamento, eu escolho os músicos.

Se com esses músicos eu ainda tiver um ótimo equipamento, sensacional, meu resultado vai melhorar mais uns 10%, hehehe.

O Tiririca gravado com o Mesmo equipamento do Freddie Mercury ainda soará exatamente como o Tiririca. 😀

8) Você já fez mixagens de gravações feitas ao vivo também. Qual a grande diferença, na sua opinião, entre o ao vivo e o gravado em estúdio?

No ao vivo a gente tem que aceitar mais os vazamentos e deixar a música te guiar mais do que numa gravação em estúdio. O equilíbrio no ao vivo vem do que está gravado, em certos casos você abaixa os pratos e eles continuam vazando na voz, você aumenta a guitarra e o grave do baixo aumenta, hehehe, é uma briga, mas aceitando o que está na gravação, fica bem divertido.

9) O que você acha essencial para que considere uma música boa? Qual sua dica para alguém que tem uma banda, ou que compõe, conseguir alavancar sua carreira?

Eu acho que as pessoas confundem a coisa da música ser boa ou ruim com o estilo da música. Pra quem não gosta de samba, nem mesmo o melhor samba agrada, e assim é com qualquer estilo de música.

Música boa é aquele que te toca, seja pra ter fazer chorar, sorrir, cantar junto, dançar… É subjetivo sim, mas fácil de avaliar quando se conhece o estilo em questão. Eu não produzo estilos que não conheço bem, não tenho critério de avaliação pra isso, quando as pessoas me procuram eu explico isso pra elas e não faço o trabalho.

Alavancar a carreira é uma coisa complicada. Eu não gosto do Music Business, nunca gostei. Acredito em longevidade, em fazer música que seja realmente significativa e que daqui a 30 anos ainda faça uma diferença na vida das pessoas, é isso que busco quando produzo, nunca penso no “novo hit do verão”, nada contra isso, mas não é o que eu busco.

10) Estamos passando por um grande mudança na forma como se produz, se consome e se ensina música. Qual a sua perspectiva para o cenário daqui a cinco anos?

Eu acredito que muitos artistas vão perceber que a liberdade que temos não é tão interessante.

Hoje podemos gravar um disco em casa. Sabe o que acontece? O cara passa 5 anos aprendendo a mexer no equipamento e quando vai ver perdeu o momento de sua carreira e resolveu passar a ser um produtor. Só que, assim como ele, os outros artistas estão perdendo seu tempo aprendendo a mexer em equipamento e não vão contratá-lo para produzir. Ele perdeu seu momento para construir uma carreira numa área que não é sua primeira opção e na qual possivelmente ele não será bem sucedido por falta de clientes.

Acredito que a galera vai focar mais na música, que é o que realmente importa. Ou ao menos é o que eu espero que aconteça, porque precisamos de renovação já.

A mesma coisa se aplica aos sistemas de streaming, por exemplo. Eles não dão dinheiro suficiente pro músico poder sobreviver de sua música. Por outro lado, ajudam muito um músico iniciante a aparecer. Agora, depois que esse músico aparecer, mesmo que ele seja um grande sucesso em termos de streaming, não vai conseguir seu sustento por isso. Complicado, não?

Para conhecer mais sobre o trabalho do Paulo, acesse http://www.pauloanhaia.com.br

Para receber um orçamento de produção, gravação, edição, mixagem e masterização mande um e-mail para contato@pauloanhaia.com.br

Valeu, Paulo!

Mousikê Central Art – Escola + Loja + Estúdio

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Mousikê Entrevista Danilo Battistini

Dentro do universo da música, existe uma infinidade de opções de carreiras: compositor, arranjador, maestro, músico, professor. Cada uma destas opções pode se desdobrar em outras.

O compositor, por exemplo, pode compor o seu próprio trabalho autoral ou para outros artistas, pode compor trilhas sonoras para cinema ou televisão, pode compor para publicidade, fazendo jingles e comerciais, ou ainda, uma somatória dessas coisas.

O músico pode, da mesma forma, tocar suas próprias músicas ou “covers”, pode tocar em uma banda de baile, realizando formaturas, festas e casamentos, ou ainda, pode ser “sideman”, acompanhando algum artista, ou se especializar como um músico de estúdio, realizando gravações. Enfim, as opções são muitas.

Se incluirmos o mundo do áudio, temos ainda produtor musical, engenheiro de som, técnico de PA, entre muitas outras carreiras.

Nesta série, vamos entrevistar algumas pessoas que vivem de música, ou de áudio, para conhecer um pouquinho de como é o trabalho delas.

Mousikê Entrevista Danilo Battistini

Danilo Battistini é um cara que acumula funções. Trabalha desde 2012 na Centauro, um renomado estúdio de dublagem e legendagem. Se você gosta de filmes e séries, com certeza você conhece o trabalho do Danilo. Vamos descobrir um pouco mais sobre o mundo da dublagem.

1) Danilo, você desenvolve uma série de atividades, poderia contar um pouco sobre o seu dia-a-dia de trabalho?

Desde que eu entrei até hoje, a minha rotina mudou bastante, até por conta do crescimento profissional aqui dentro da Centauro, então vou colocar por partes as funções que eu fiz (e as que ainda faço).

CORTE / MAPA DE ANÉIS: Quando comecei trabalhando aqui eu ainda não estava especificamente trabalhando com áudio. Dentro da dublagem, eu fazia o que chamavam de CORTE e MAPA DE ANÉIS. Pra quem tem interesse, um resumo a respeito disso: no início da dublagem, os filmes vinham em Rolos pra dublar, esses rolos eram literalmente cortados em trechos de 20 segundos e cada rolo de 20 segundos era chamado de Anel (ou, no inglês, Loop). Isso é uma questão técnica, porque, a partir do momento que você tem esses vários anéis, você consegue ter uma divisão de “Em quantos anéis o personagem X aparece?” e “Quantos anéis o dublador é capaz de dublar por hora?” e a partir disso veio a questão mais legal (legal no sentido de normas/regras/leis/etc.) da coisa, você conseguiu definir o valor da hora do dublador (e do técnico de captação e do diretor de dublagem), assim dava pra definir um jeito melhor de fazer um orçamento de uma produção e do pagamento. Ou seja, quando eu entrei, eu assistia os filmes e fazia esse corte no texto traduzido pra que o estúdio fizesse as escalas com os dubladores e tudo mais.

TÉCNICO DE CAPTAÇÃO: Trabalhando junto com o diretor de dublagem e o dublador. A rotina de estúdio é sempre a mesma, mas sempre diferente, porque você pode gravar diferentes produções, diferentes dubladores, diferentes diretores de dublagem, o seu horário depende da escala do estúdio, então pode não ser muito ‘rotineiro’, mas o trabalho em si não muda. A rotina de gravação é:

1) Ajustar microfone de acordo com a altura do dublador;

2) Prestar atenção, durante a gravação, com ruídos no áudio (Pufs, sibilância, estalos, barulho de caneta, se o dublador se mexer na cadeira, papel do texto no meio da fala, etc…);

3) Tomar cuidado com o volume de captação, se você captar algo muito baixo, quando você der ganho na mixagem vem muito ruído, e se você captar muito alto corre o risco do áudio clipar (estourar, distorcer) e comprometer a fala;

4) O técnico de captação, o diretor de dublagem e o dublador são uma equipe, então também podia dar meus palpites (nunca sendo desrespeitoso) se alguma fala não tivesse ficando legal, se alguma fala ficou muito comprida, dando sugestões, se poderia trocar o texto e coisas do tipo.

Depois de um tempo captando, eu entrei pra área de pós-produção, essa parte envolve a Mixagem, Controle de Qualidade (mais comum no meio como QC, do inglês, Quality Control)

MIXAGEM: Uma rotina da mixagem envolve pegar o projeto de gravação do estúdio, importar o áudio do programa de M&E (Music and Effects / Música e Efeitos. É uma pista de áudio do programa que contém todo o som do filme sem os diálogos, pra que a gente coloque a dublagem). O critério de mixagem é sempre manter o áudio dublado o mais próximo do original e o tempo de trabalho varia bastante dependendo do programa, tem alguns mais complicados, alguns menos, mas, como média, o tempo de mixagem que se estima pra um produto é de 3 pra 1 (Exemplo: se o programa tem 20 minutos, uma mixagem levaria 1 hora. Um filme de 1h20 levaria cerca de 4 horas e por ai vai). Na mixagem, o que se faz é ajustar efeitos, nivelar volume, ajeitar o volume da M&E, acertar reverb de cada cena, enfim, mixar o programa inteiro.

QC / CONTROLE DE QUALIDADE: Uma rotina de QC envolve pegar um projeto já mixado e assistir de forma crítica. Fazer o ajuste mais preciso do Sync das falas, acertar o volume, se necessário, verificar se tem algum erro gramatical, se falta alguma fala e coisas do tipo. E depois passar um relatório para o estúdio se precisar de alguma correção (ou também chamado de Retake).

A minha rotina, atualmente, varia bastante, dependendo dos trabalhos aqui do estúdio. Eu trabalho das 7h~16h (com alguns dias fazendo horas extras se tiver alguma produção mais urgente). Quando chego, eu vou pra minha sala de Mixagem e a primeira coisa que faço é ver os e-mails, que é por onde geralmente meu chefe diz qual ordem de mixagem/QC/outras tarefas. Cada dia é um dia diferente de trabalho, pela produção ser diferente.

Além disso, quando tem algum serviço específico, eu também faço edição de vídeo e inserts de legenda.

2) Como você chegou a essa área? Fez algum curso específico? Qual a sua formação?

Quanto à minha formação, me formei pela Anhembi Morumbi em Produção Musical em 2011 e Rádio e TV em 2014. Comecei a trabalhar em estúdio no começo de 2010, quando consegui um estágio no estúdio Ultra-Sônica. Trabalhei lá alguns meses só, lá era (fechou ano passado, se não me engano) um estúdio de música, trabalhavam com ensaios e gravações, inclusive, nesse estúdio, eu tive a oportunidade de conhecer algumas bandas como Angra, Cavalera Conspiracy, acompanhei a gravação da bateria do Mentalize do André Matos, mas, por ser um estágio, as minhas funções eram simples, eu trabalhava organizando os estúdios e fazendo gravações de ensaios.

Depois desse estúdio, em outubro de 2010, eu consegui um emprego como Assistente de Edição de Som no estúdio INPUT Arte-Sonora. Meu trabalho aqui era voltado pra gravações e edições de spots pra rádio/Internet, gravação de foley (efeitos sonoros) e edição de áudio para TV e Cinema. Foi aqui que eu tive meu primeiro contato com dublagem, quando gravei um dublador pro filme longa metragem Brasil Animado. Também gravei duas crianças pra animação Caco e Dado, da TV Cultura.

Eu sai da INPUT na metade de 2011 e comecei a trabalhar como editor de som, artista Foley e Sound Designer freelancer.

Em 2012, através do site Tela Brasileira (que é praticamente uma Catho pra área audiovisual), me ligaram para a entrevista na Centauro e comecei a trabalhar já no dia depois da entrevista.

3) Você estuda música desde 2002, toca diversos instrumentos, este conhecimento musical ajuda no seu trabalho?

Ajuda sim, em vários pontos. Apenas o fato de estudar música, por si só, já ajuda a treinar o ouvido, então ele fica mais apurado, por exemplo, para equalizar uma voz que talvez tenha sido mal captada, ou enviada de outro estúdio que tem uma sala de gravação diferente da Centauro. Definir melhor quando existem ruídos de gravações, além de uma parte mais técnica quanto a conhecer equipamentos de áudio (fones de ouvidos, monitores, DAWs, Interfaces de áudio, microfones, etc…) ou até mesmo, em casos de mixagem, quando tem algum personagem falando através de um alto-falante, uma caixa de som, ajuda quando for colocar o efeito naquela voz pra que pareça estar soando como no original.

Em outros casos mais específicos, aqui no estúdio nós gravamos algumas músicas para séries, filmes e brinquedos. Geralmente, pedem pra que eu, o João (que é o outro mixer aqui da Centauro que é formado em Música) ou algum técnico que tenha conhecimento musical trabalhe na captação de voz desses projetos, pois, por ser um trabalho mais específico, é bom ter o conhecimento musical durante a gravação, saber se a pessoa está cantando no tom certo, se está no tempo certo entre outros pontos. A direção musical desses projetos quase sempre é feita pelo Nil Bernardes.

Fora que, pra mixagem, sempre cai na minha mão ou na do outro mixer da casa, então é um grande “plus” que a gente tem pelo fato de trabalhar com música.

Esses projetos que precisam gravar música são enviados o áudio apenas com a base instrumental, entre alguns projetos desse tipo que participei como técnico de captação, mixagem ou direção musical:

– Vários brinquedos da Fisher Price (Técnico de Captação);

– Músicas da série 3rd & Bird, atualmente no Netflix (Mixagem);

– Abertura de animes como Pokémon, Bakugan, Super 11, etc… (Técnico de Captação/Direção);

– Alguns pontos de música da série The Crazy Ones (Direção, pois a música foi cantada em inglês);

– Músicas do especial de natal do desenho Walter & Tandoori (Adaptação/Direção).

Ainda teve momentos mais específicos em que, além da captação e mixagem, eu também trabalhei na tradução e adaptação da letra em inglês para a versão brasileira, como na abertura da 16ª e 17ª temporada de Pokémon e até um rap de uma série do canal Lifetime chamada Younger.

4) Já ouvimos dizer que existem algumas palavras que não podem ser usadas em uma tradução, verdade ou mito?

É verdade, mas são para clientes específicos.

Sou tradutor pra dublagem e legenda desde 2013 e, por exemplo, um dos clientes aqui do estúdio envia um documento falando quais palavras não podem ser usadas com sugestões do que pode ser utilizado no lugar, isso engloba até mesmo algumas regras gramaticais, que mesmo que exista uma diferença entre a linguagem escrita e a linguagem falada, o cliente não quer que utilize alguns “coloquialismos”, como por exemplo, pedem pra cortar o artigo “o – a”  (Exemplo: “a sua casa” => sua casa;  “Pega o meu boné” => Pega meu boné) além de coisas como trocar “Vou ajudar ele” para “Vou ajudá-lo”. 

Essa, inclusive, é uma das grandes críticas não só de espectadores, mas também de tradutores e dubladores! Porque isso deixa uma fala muito engessada e descaracterizada (Quantas vezes você vai ouvir um cara que viveu a vida toda na periferia, fugiu da escola e foi preso falando um português correto e sem nenhum palavrão?), além de fugir do que está sendo dito no original. Alguns dubladores, inclusive, pararam de trabalhar com alguns clientes específicos por conta dessas regras.

No meu caso, quando eu traduzo, eu já penso em adaptar toda a frase pra que não precise colocar essas regras, tentando deixar a fala do jeito mais ‘falado’ possível.

5) Além da tradução e da dublagem, tem também o som ambiente. Na Centauro é feita essa parte? Em caso afirmativo, fale um pouco sobre.

Essa parte quase sempre é enviada pelo cliente, foram bem poucas as vezes em que a gente teve que montar alguma coisa da ambiência. Quase sempre esse áudio da M&E (Música e Efeitos) é enviado pelo próprio cliente. Conheço alguns outros estúdios de dublagem que fazem esse serviço (que chamam de “Montar M&E”), mas é por pedido do cliente, os clientes que trabalham com a gente mandam a M&E.

Inclusive, isso também é, em parte, responsável por algumas críticas aos programas dublados, dizendo que a ambiência de cenas não é tão presente quanto no original e coisas do tipo. O fato é que tem clientes que enviam M&Es muito boas e clientes que enviam M&Es horríveis.

6) Quantos profissionais, em média, são necessários para realizar a dublagem de um longa?
Depende muito do longa, vou falar um pouco das “normas” da dublagem, pra tentar ajudar a imaginar a estimativa baseado em todas as áreas desde que um cliente pede para que um programa seja dublado:

– 1 Tradutor;

– 1 Responsável pelo Corte e Mapa de Anéis (Em alguns casos pode até ser o próprio tradutor ou o diretor de dublagem);

– 1 Diretor de Dublagem (Isso em estúdio, pode haver alguma troca de direção para um personagem ou outro, dependendo dos horários dos dubladores, entre diversos outros compromissos pessoais);

– 1 Técnico de som (Isso em estúdio, pode haver troca de técnico dependendo do horário da escala dos dubladores, entre diversos outros compromissos pessoais);

Quanto aos dubladores existem algumas regras que servem como guia para toda a categoria de dubladores, entre elas:

– Um programa possuí um elenco de PROTAGONISTA 1 (a personagem com mais anéis no programa),  PROTAGONISTA 2 (a 2ª personagem com mais anéis no programa),  COADJUVANTE 1 (a 3ª personagem com mais anéis no programa), COADJUVANTE 2 (a 4ª personagem com mais anéis no programa) e PONTAS (que são todas as outras personagens do programa). Essa divisão também é feita para o pagamento. Quem dubla o PROTAGONISTA 1 ganha mais pela hora de dublagem do que o PROTAGONISTA 2, que ganha mais que o COADJUVANTE 1 e por ai vai.

– Qualquer dublador que tenha uma personagem com mais de 20 anéis não pode fazer outro personagem.

– Um dublador pode ter no máximo 3 dobras (fazer 3 personagens que somando todos os anéis que eles entram não ultrapassem 20 anéis). Nota: Isso em São Paulo, no Rio de Janeiro um dublador pode fazer 4 dobras.

Ou seja, o número de dubladores para uma produção varia muito dependendo do filme.

7) Qual a função de cada um deles e qual a cadeia de produção?
Dentro da cadeia de produção da dublagem temos:

CLIENTE – Quem decide dublar o produto, responsável pelo envio do material (Vídeo + Script para tradução + M&E).

TRADUTOR – Responsável pela tradução do programa.

CORTE/MAPA DE ANÉIS – Responsável por fazer o corte e o mapa de anéis do programa.

DIRETOR DE DUBLAGEM – Responsável por fazer a ESCALA do filme (Escalar o filme é escolher quais dubladores vão fazer parte do elenco e quem vai dublar quem) e pela direção do dublador dentro de estúdio.

EQUIPE DE PRODUÇÃO NO ESTÚDIO – Responsável por entrar em contato com os dubladores/diretores de dublagem/técnicos de som para marcar os horários de gravação.

TÉCNICO DE CAPTAÇÃO – Responsável pela gravação no estúdio;  Gravar em bom nível, ficar atento aos ruídos e barulhos na fala, nomear as pistas de gravação corretamente etc…

TÉCNICO DE MIXAGEM – Responsável pela mixagem do programa; Mixar a dublagem com a M&E adicionando efeitos, equalização quando necessário, mantendo o produto final com um volume nivelado, pra que não fique uma mixagem ruim em que a VOZ e a M&E estejam em níveis muito diferentes, efeitos exagerados e etc…

TÉCNICO DE QC – Responsável pelo Controle de Qualidade do produto finalizado; Avaliar criticamente o programa, pedir correções quando necessário, fazer ajustes mais precisos quanto ao sync e volume da mixagem, podendo, inclusive, pedir para trocar dubladores caso a voz não tenha ficado boa em determinado personagem.

Depois do QC, o produto é enviado para o cliente que realiza o próprio QC deles e pede correções, quando necessário.

8) Uma pergunta mais técnica. Quais as ferramentas que você usa na gravação e mixagem? Microfones, Interface, DAW, plugins, etc. Conte um pouco sobre seu método de mixagem.

Praticamente todos os estúdios de dublagem que conheço trabalham com Pro Tools, tanto na captação quanto na Mixagem. Aqui na Centauro temos 7 estúdios de captação e 3 estúdios de Mixagem/QC.

Nos estúdios de captação trabalhamos com: iMac i5 17 polegadas 8Gb RAM, Microfone Neumann TLM-102, Interface M-Audio MBOX, DAW Pro Tools (Express e 10.3).

Nos estúdios de Mixagem/QC trabalhamos com: iMac i5 27 polegadas 16Gb RAM, interface M-Audio MBOX PRO, DAW Pro Tools 10HD, sistema 5.1, 5 caixas M-Audio BX6 e 1 sub Yamaha YST SW012. Nós usamos o pacote de plugins da Waves 9.

Quando me passam alguma coisa pra mixagem, a primeira coisa que faço é importar um template básico que eu tenho criado já com as pistas auxiliares com os plugins que eu sempre uso. De forma simplificada, a minha sessão de mixagem funciona da seguinte maneira (tanto para mixagens 2.0 como para mixagens 5.1):

– 1 canal Stereo com a M&E (Endereçada para o canal de mixagem); Nesse canal eu deixo o plugin PhaseScope para garantir que a M&E esteja Estéreo;

– 1 canal Stereo com o áudio original (Ele sempre fica mutado, sem som, apenas ouço em algumas cenas para ter a referência para mixagem, uso de efeitos/reverb na cena/saber quando está faltando fala/etc… );

– 1 canal Auxiliar com um Reverb para ambientes grandes;

– 1 canal Auxiliar com um Reverb para ambientes médios;

– 1 canal Auxiliar com um Reverb para ambientes pequenos;

**Outros reverbs são criados apenas em caso de necessidades específicas, mas, de modo geral, a possibilidade de usar os reverbs de formas individuais ou somadas quase sempre me dão um resultado como o do original**

– 1 canal Auxiliar mono com os seguintes plugins para processar a voz dublada: Equalizador (EQ3- 7 Band), Limiter (L1 Limiter), Compressor (Dyn3 Compressor), RDeEsser (plugin usado para diminuir a sibilância), MaxxBass (para dar um ganho no grave)  e OneKnobBrighter (para dar mais brilho na voz); A ideia desse canal com esses efeitos é pra dar uma “mascarada” no som de estúdio, aproximando mais o dublado para dentro da cena;

– 1 canal com diversas opções do plugin Speakerphone;  Esse plugin simula diversos meios por onde a voz propaga já com diversos presets, como por exemplo: TVs, Carros, Celular, Walkie-Talkie, Megafone, Alto-Falante, Brinquedos, Amplificadores, entre diversos outros;

– 1 Canal Stereo com a PRÉ (Esse canal contem apenas as vozes processadas, ou seja, que já passaram por todos os Plugins mencionados antes), esta pista também é conhecida como DSTM (do inglês, Dialogue Steam), esse canal é endereçado para o canal de mixagem;

– 1 Canal Stereo com a MIX (O canal com a mixagem final do produto), nele eu deixo o plugin PhaseScope, Dorrough Meter e WLM Meter para manter controle do nível geral e momentâneo da mixagem.

Sempre que enviamos um arquivo para o cliente, enviamos a MIX e a PRÉ. Esse arquivo de pré, geralmente, é utilizado quando o cliente vai utilizar para montar alguma chamada do programa, desse jeito ele pode colocar músicas de fundo ou algo do tipo.

9) Quais os trabalhos que você mais gostou de ter feito?

Gosto de vários trabalhos que já fiz aqui, mas citando os que mais gostei:

Diary of Anne Frank (O Diário de Anne Frank) (1959); Eu adorei esse trabalho porque, além de ter traduzido ele (hahahahahaha), foi um desafio novo de mixagem pra mim, o filme é de 1959, então a mixagem, diferente das outras, tinha que ter uma cara mais “envelhecida”, porque se não ia ficar muito diferente da M&E e do visual do filme. Tive que fuçar mais nos plugins disponíveis pra chegar num bom resultado (que, por sinal, eu gostei bastante).

August Eighth (Guerra de Agosto); Esse filme foi o primeiro que eu fiz uma mixagem 5.1 pra dublagem! O filme é da Fox, a M&E tava muito completa, o filme tem cenas de guerra muito bem feitas, tem algumas cenas que se passa na “imaginação” de um garoto, substituindo a guerra por um tipo de fantasia estilo Transformers, então são muitos sons muito bons de se ouvir, cenas cheias que davam trabalho pra colocar todas as vozes ali dentro daqueles ambientes de guera. Fora que tinha um personagem na imaginação do menino que se chamava Makrovlast, ele era um vilão meio robotizado, o efeito da voz dele foi muito legal de fazer.

Mara und der Feuerbringer (Mara e o Portador do Fogo); Gostei muito desse trabalho porque o filme é muito bom, várias referências à cultura pop/nerd/geek, e o vilão do filme “O portador do Fogo” é um tipo de elemental de fogo, também foi muito legal de fazer essa voz (https://soundcloud.com/dansfx/sets/fire-elemental). Gosto muito de fazer esses efeitos de vozes! Fora que essa foi minha primeira mixagem pra Globo.

Pokémon; Trabalho com Pokémon desde a 15ª temporada e desde a 17ª temporada eu sou responsável pelo controle de qualidade de áudio da série aqui no Brasil, é muito satisfatório pra mim, vendo como comecei no estúdio, ter responsabilidades assim agora.

Gosto muito de todos os trabalhos que faço, mas vou deixar só esses porque se não a lista vai ficar enorme. (hahahahahahahah)

10) Você deve ter despertado o interesse em alguém (rs), tem alguma dica para quem quer seguir carreira num estúdio de dublagem?

Pra trabalhar como técnico de som em estúdio, precisa saber mexer no Pro Tools, o básico pelo menos, apesar de que, quanto mais souber, melhor. O curso de produção musical é bem mais específico (o da Anhembi é tecnólogo, dois anos) e, por conta disso, você fica com um conhecimento bem melhor pra trabalhar com gravação e mixagem. Caso queira algo mais acadêmico com um leque maior de opções do que fazer, recomendo algum curso de Rádio e TV ou de Audiovisual.

Dentro do mercado também são valorizados cursos específicos, como os do IAV.

Agora, quanto a procurar vaga, conhecer alguém no meio ajuda bastante, mas uns 90% dos técnicos de captação trabalham como freelancer, é uma área que pode variar bastante a quantidade de trabalho dependendo das necessidades dos estúdios, então, caso queira procurar uma vaga nesse mercado, precisa ir aos estúdios, deixar um currículo, perguntar se pode passar um dia vendo o trabalho lá, conversar com o pessoal e correr atrás!

Quanto a trabalhar na pós-produção (Mixagem e QC), já precisa não só de um conhecimento maior, como de experiência também, e pra conseguir isso acho que o caminho mais fácil é passando pelo estúdio como técnico de captação e ir pedindo oportunidades dentro do próprio estúdio.

Aproveitando, caso alguém queira ver alguns trabalhos meus, eu atualizo todo mês meu portfólio online www.danilobattistini.com.

Preparamos um infográfico com a cadeia de produção da dublagem:

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Algumas fotos dos estúdios da Centauro, tiradas pelo próprio Danilo.

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Agradecemos ao Danilo pelas informações e desejamos mais sucesso ainda em sua jornada!