Modos Diatônicos

Existe uma quantidade enorme de textos sobre o assunto, por isso não pretendo aqui me alongar com mais do mesmo, e sim levantar algumas questões sobre o uso atual dos modos. Aqui expresso minha opinião sobre alguns aspectos, que é baseada na minha experiência de 20 anos como professor de música. Se você não concorda ou tem algo a acrescentar, sinta-se à vontade para deixar o seu comentário, assim todo mundo aprende.

1) Diferença entre Escala e Modo

Usamos indistintamente os termos Escala e Modo. Em ambos os casos, queremos fazer referência a uma sequência de notas, mas há uma diferença.
Enquanto a Escala apenas determina um conjunto de notas, o Modo sugere um contexto, uma sonoridade específica, uma associação a uma linguagem, uma origem, um sabor modal. Seria como dizer “ao modo de”. Ao modo dos flamencos ou ao modo nordestino, por exemplo. Estes termos já nos remetem a uma certa sonoridade.
Quando nos referimos ao modo Lídio, ou Dórico, é a mesma coisa, uma sonoridade única, impregnada de um sabor próprio.

2) Modos

Sim, os nomes são de origem grega, mas os modos como usamos hoje, não. Tampouco são eclesiásticos ou gregorianos. Os modos gregos eram outros, foram redescobertos e reinterpretados durante a Idade Média e seu uso, durante o desenvolvimento da polifonia, levou ao surgimento do sistema tonal. Depois, os modos novamente voltaram a ser empregados, mas agora associados à harmonia tonal, à transposição e ao cromatismo, ou seja, de forma diferente do uso dos gregos ou do uso na Idade Média.

“Através do romantismo os modalismos […] recalcados pela tonalidade clássica começam a voltar, assimilados agora, no entanto, à harmonia tonal, isto é, ao encadeamento de acordes, que, como sabemos, não existe nas tradições modais. Os modos são adaptados ao discurso tonal, produzindo nele novas inflexões”. (WISNIK, 1989, p. 159)

“Modernamente, o jazz será uma fonte de cruzamentos entre a harmonia tonal e as variações escalares modais, ocorrendo também esses cruzamentos em outros  gêneros de música popular, dos Beatles a Elomar, de Milton Nascimento a Miles Davis”. (WISNIK, 1989, p. 160)

Prefiro usar, então, Modos Diatônicos a Modos Gregos ou qualquer outra opção.

3) Os Nomes

Em grego temos: Doristi, Phrygisti, Lygisti, Mixolydisti.
Em inglês: Ionian, Dorian, Phrygian, Lydian, Mixolydian, Aeolian e Locrian. *também existem as opções Ionic ou Doric em inglês
Em português percebo uma certa “bagunça”, já que podemos usar Jônico ou Jônio, Dórico ou Dório, Eólio ou Eólico. Confesso que me incomoda um pouco a mistura, usar Jônio e Dórico, por exemplo. Se Jônio, prefiro Dório. Se Dórico, prefiro Jônico.
Tomando o inglês como referência, acho que faz mais sentido: Jônio, Dório, Frígio, Lídio, Mixolídio, Eólio e Lócrio. Não é uma questão de certo ou errado, apenas uma observação. Percebo que se usa muito, tanto Jônio quanto Jônico, mas pouco se usa Dório e Eólico.

4) Formação das Escalas (Modos)

A Escala Maior, formada pela sequência intervalar F 2M 3M 4J 5J 6M 7M, recebe também uma denominação modal, o modo Jônio.
Da mesma forma, a Escala Menor Natural, formada pela sequência intervalar F 2M 3m 4J 5J 6m 7m, recebe o nome modal Eólio.
Os outros modos se assemelham a esses e se dividem em dois grupos, os Modos Maiores e os Modos Menores, porém cada modo tem uma nota característica que o difere dos demais.
Os Modos Maiores são, além do próprio Jônio, o Lídio e o Mixolídio (possuem terça maior).
Os Menores, Eólio, Dório e Frígio (possuem terça menor).
Podemos usar o nosso alfabeto para gravar essa informação: as letras em sequência D, E e F representam os menores (Dório, Eólio e Frígio), e as letras, J, L e M, os maiores (Jônio, Lídio e Mixolídio).

modos-diatonicos

Na figura acima temos o triângulo preto com os Modos Maiores e seus intervalos (notas) característicos.
O Lídio é idêntico à Escala Maior, exceto pela substituição da 4J pela #4 (quarta aumentada).
O Mixolídio é idêntico à Escala Maior, exceto pela substituição da 7M pela 7 (sétima menor).
No triângulo cinza, temos os Modos Menores.
O Dório é idêntico à Escala Menor, exceto pela substituição da 6m pela 6M.
O Frígio é idêntico à Escala Menor, exceto pela substituição da 2M pela 2m (b9).
O Lócrio, ao centro, tem a seguinte formação intervalar: F 2m 3m 4J b5 6m 7m, ou seja, tem o intervalo de terça menor, que caracteriza uma escala menor, mas tem duas alterações em relação à Escala Menor Natural (2m e b5). Além disso, o intervalo de quinta diminuta (b5) lhe confere uma sonoridade diferenciada, sendo essa a sua nota característica. Por estes motivos, na figura, ele está separado dos demais modos, mas você pode considerá-lo um modo menor.

5) Da Sonoridade

Em relação à sonoridade dos modos, três informações são importantes, principalmente considerando o seu uso para a improvisação.
A primeira é a categoria do modo, se ele é maior ou menor, como vimos anteriormente. *o modo Mixolídio pertence à categoria Dominante, por ser maior com 7 (sétima menor)
A segunda é o intervalo característico que, além de diferenciá-los dos demais modos, lhes confere o sabor modal próprio.
A terceira é a cor do modo, se ele é mais claro ou mais escuro.

Hierarquia Modal:

Lídio F 2M 3M 4A 5J 6M 7M 8
Jônio F 2M 3M 4J 5J 6M 7M 8
Mixolídio F 2M 3M 4J 5J 6M 7 8
Dório F 2M 3m 4J 5J 6M 7 8
Eólio F 2M 3m 4J 5J 6m 7 8
Frígio F 2m 3m 4J 5J 6m 7 8
Lócrio F 2m 3m 4J 5d 6m 7 8hierarquia-modal

Chegamos a essa consideração importante, novamente fazendo uso dos intervalos de quinta justa, já que nessa ordem cada modo está separado por uma quinta.

Ainda utilizando as quintas justas, o círculo de quintas mais especificamente, podemos visualizar isso de outra forma: quanto mais notas no sentido horário, a partir da fundamental, mais claro o modo, quanto mais notas no sentido anti-horário, mais escuro.

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O Lídio tem a sonoridade mais aberta, mais brilhante, de caráter mais ascendente, enquanto o Lócrio é o modo de sonoridade mais escura, mais fechada, tendente a descer e resistente a subir.

6) Equilíbrio e Sistema Tonal

Repare como o modo Jônio está entre o Lídio e o Mixolídio e como o modo Eólio está entre os modos Dório e Frígio, sendo opções intermediárias, mais equilibradas, entre os modos maiores e menores. Seria por isso, talvez, que o sistema tonal convergiu para o uso destes dois modos? Existem várias outras razões, na verdade. A passagem do sistema modal para o sistema tonal se deu em meio a uma total confusão, mas esse é um ponto de vista interessante.

Repare como o Dório é o modo localizado ao centro da lista, sendo talvez o mais equilibrado de todos e, talvez por isso, o modo preferido durante toda a Idade Média. Repare também como o Dório é simétrico em sua formação intervalar: T S T T T S T

E mais, considerando o Dório como um espelho, vemos que o Frígio é a inversão do Jônio, o Eólio, a inversão do Mixolídio, e o Lócrio, a inversão do Lídio:
Jônio -> T T S T T T S <- Frígio
Mixolídio -> T T S T T S T <- Eólio
Lídio -> T T T S T T S <- Lócrio

É isso! Bons estudos!

Leandro Fonseca – Compositor, Professor, Músico, Produtor e Diretor da Mousikê fb.com/leandrofonsecatgk

Referências:
WISNIK, José Miguel. O som e o sentido. São Paulo: Companhia das Letras, 1989
CANDÉ, Roland de. História Universal da Música. São Paulo: Martins Fontes, 2001
SCHWARTZ, Anton. Disponível em http://antonjazz.com Acesso em 07/02/2017

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